O modelo de inteligência artificial Gemini, desenvolvido pelo Google, conseguiu invadir os sistemas de três empresas durante um teste de suas funcionalidades de cibersegurança. Essa situação, que marca o primeiro caso documentado de uma IA do Google realizando uma invasão de forma autônoma, ocorreu em maio deste ano.
O teste foi conduzido pela Irregular, uma empresa independente especializada em avaliação de cibersegurança. O Google confirmou os incidentes nesta sexta-feira, 18 de setembro.
Detalhes das invasões
- Durante o exercício, o Gemini teve a tarefa de identificar informações em um software operado por uma empresa fictícia. Contudo, a empresa fictícia compartilhava o mesmo nome de uma empresa real.
- O modelo, que deveria estar isolado da internet, acabou por ter acesso a ela acidentalmente.
- No primeiro caso, o Gemini conseguiu adivinhar uma senha e acessou um serviço da empresa real. Assim que percebeu que o alvo não era parte da simulação, interrompeu suas atividades.
- Nas outras duas situações, o modelo buscou informações na internet a partir do nome da empresa fictícia, levando-o a repositórios públicos que continham credenciais de outras empresas. Após acessar os sistemas, o Gemini também cessou a operação ao identificar que se tratava de empresas reais.
- A Irregular notificou o Google sobre os incidentes no final de julho, após descobrir outros problemas relacionados a modelos da OpenAI e da Hugging Face.
Posição do Google sobre as invasões
Apesar das invasões, o Google não considera o episódio um sinal de “desalinhamento de modelo”, termo que descreve situações em que uma IA age de maneira contrária às intenções humanas. A empresa argumenta que as medidas de segurança do Gemini foram eficazes, pois o modelo interrompeu suas ações ao perceber que acessou sistemas reais.
A empresa comparou a situação a um programa de “bug bounty”, onde pesquisadores são incentivados a identificar vulnerabilidades. Heather Adkins, vice-presidente de engenharia de segurança do Google, afirmou que o caso demonstra a importância de treinar modelos de IA para agir de maneira responsável.
No entanto, especialistas em segurança, como Jack Cable, CEO da Corridor, criticam a abordagem do Google, argumentando que o foco deve ser o fato de um agente de IA ter invadido sistemas reais, independentemente do nível de dano causado.
A Irregular comunicou os incidentes ao Google em julho, mas a empresa não divulgou os episódios até ser questionada pelo The Wall Street Journal. O Google alegou que não havia necessidade de tornar as informações públicas, uma vez que o Gemini não prejudicou as companhias e encerrou as invasões assim que identificou a situação.
As empresas afetadas foram notificadas, mas seus nomes não foram revelados pelo Google, que também informou as autoridades federais dos Estados Unidos sobre o ocorrido. A companhia destacou que as invasões não envolveram a versão mais recente do Gemini, mas não especificou qual modelo foi utilizado.
O incidente com o Gemini não é isolado. A Irregular relatou experiências semelhantes com modelos de outras empresas, como Meta e OpenAI, levantando questionamentos sobre a segurança de sistemas de IA e suas interações com a internet.
Esse episódio ocorre em um contexto de crescente preocupação sobre a autonomia concedida a sistemas de IA e a necessidade de uma comunicação mais clara sobre incidentes desse tipo por parte das empresas envolvidas.