O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou, nesta quinta-feira (20), um ambicioso pacote de investimentos de R$ 2,5 bilhões voltado para o fortalecimento da infraestrutura brasileira em inteligência artificial (IA). O projeto inclui a instalação de um supercomputador avaliado em cerca de R$ 1 bilhão, que será alocado no Rio Grande do Norte.
A proposta foi revelada durante a visita de Lula ao Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), localizado em Macaíba, na região metropolitana de Natal. O supercomputador fará parte do novo Centro Brasileiro de Computação de Alto Desempenho e Inteligência Artificial.
O plano prevê um investimento de R$ 1,06 bilhão para a aquisição e operação do equipamento, sendo R$ 960 milhões destinados à compra do supercomputador, enquanto os restantes R$ 100 milhões cobrirão as etapas de instalação e operação. Esses recursos estão alocados no CT-Infra, um instrumento de financiamento para infraestrutura de pesquisa que integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
Desempenho do supercomputador
- O supercomputador terá um desempenho estimado em 7,2 mil petaflops em FP16, com mais de 50 mil núcleos de processamento e um consumo elétrico projetado de quatro megawatts;
- Em termos práticos, isso significa que a máquina pode realizar até 7,2 quintilhões de operações por segundo, uma capacidade crucial para aplicações de IA;
- Marcelo Fernandes, diretor do Núcleo de Inteligência Artificial (Metrópole IA) do Instituto Metrópole Digital da UFRN, destacou que, se oito bilhões de pessoas realizassem um cálculo por segundo, levaria cerca de 29 anos para completar a quantidade de operações que o supercomputador processará em apenas um segundo;
- Ele comparou: “Uma pessoa fazendo uma operação matemática por segundo precisaria de aproximadamente 228 bilhões de anos para realizar a mesma quantidade de cálculos que o supercomputador poderá fazer em um segundo”.
Para efeito de comparação, o supercomputador Santos-Dumont, atualmente o mais potente no Brasil, opera com 27 petaflops. O governo estima que o treinamento de um grande modelo de linguagem, como o GPT-4, levaria cerca de 11 anos no Santos-Dumont, enquanto a nova máquina poderá completar esse processo em cerca de um mês.
Utilização do supercomputador
A nova infraestrutura não será exclusivamente destinada ao governo. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirmou que a máquina estará disponível para universidades, instituições de tecnologia, empresas e órgãos públicos.
O supercomputador deverá atender empresas e startups interessadas em desenvolver e treinar seus próprios modelos de IA, além de universidades e centros de pesquisa envolvidos em projetos de ciência de dados. O uso também será possível para instituições governamentais nas áreas de saúde, agricultura, clima, indústria e serviços públicos.
Além disso, haverá oportunidades de formação para profissionais e estudantes em áreas de alta qualificação. “Não se trata apenas de adquirir uma máquina. Existem contrapartidas que as empresas deverão cumprir, criando benefícios estruturais para o nosso país”, ressaltou Santos.
Escolha do Rio Grande do Norte
O governo justificou a escolha do Rio Grande do Norte como uma estratégia para distribuir melhor a infraestrutura tecnológica pelo país e ampliar a capacidade científica e econômica da região Nordeste. A governadora do estado, Fátima Bezerra, destacou que o estado apresentou as condições técnicas mais adequadas para receber o equipamento, incluindo a disponibilidade de energia limpa.
A expectativa é que a instalação do supercomputador aumente a capacidade de pesquisa e formação em IA no Nordeste, propiciando a integração entre universidades e centros de pesquisa. Economicamente, o governo vê um potencial para atrair pesquisadores, startups e empresas de tecnologia para a região.
Frentes tecnológicas do PBIA
O supercomputador é uma das três frentes tecnológicas do PBIA. A segunda envolve uma cooperação tecnológica com a China, que incluirá a criação de uma estrutura de computação avançada no Rio de Janeiro. A terceira se concentra no desenvolvimento de chips com arquitetura aberta em Campinas (SP).
Essas iniciativas visam reduzir a dependência do Brasil em relação à capacidade computacional contratada no exterior, além de expandir a infraestrutura necessária para o desenvolvimento de IA. O PBIA prevê um total de R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, abrangendo infraestrutura tecnológica, formação de profissionais, pesquisa e inovação.
Parceria com a Huawei
Outra estratégia do governo inclui a parceria com a Huawei para implantar uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, em colaboração com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). O centro deve começar a operar em 2027 e terá como objetivo desenvolver um grande modelo de linguagem, semelhante ao utilizado por sistemas como ChatGPT.
O governo estima um investimento de R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos na parceria, que também prevê a capacitação de três mil profissionais brasileiros. Em contrapartida, a Huawei e a iFlytek deverão oferecer transferência de tecnologia e pesquisa.
Desafios e riscos
O anúncio de Lula ocorre em um contexto de crescente disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. A ministra Luciana Santos reconheceu, em entrevista, que o governo pode enfrentar “incertezas e riscos” associados à compra de supercomputadores, mencionando a possibilidade de os Estados Unidos restringirem fornecimentos a quem negociar com a China.
Ela ponderou, no entanto, que há um interesse mútuo entre as empresas estadunidenses e o Brasil, considerando o potencial financeiro do projeto.
Fonte: Olhar Digital