A influência da inteligência artificial (IA) generativa nas eleições pode estar sendo superestimada. Essa é a conclusão do pesquisador Felix Simon, do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo e do Instituto de Internet de Oxford, no Reino Unido. Simon, junto com seu colega Sacha Altay, analisou eleições realizadas entre 2023 e 2024 e compartilhou suas observações em entrevista à BBC News Brasil.
Durante a conversa, Simon destacou que os impactos da tecnologia não se concretizaram na proporção que se imaginava. Ele observou que fatores políticos, sociais, culturais e econômicos, assim como a atuação de candidatos e veículos de comunicação tradicionais, continuam a ter um peso mais significativo no comportamento dos eleitores.
Atenção e crenças limitam efeito da desinformação
Um dos principais desafios para influenciar o voto, segundo Simon, é a captura da atenção do público. Ele ressaltou que as pessoas possuem um tempo limitado para consumir conteúdos, resultando em uma intensa competição por esse espaço. Além disso, muitos usuários nas redes sociais tendem a consumir conteúdos que reforçam suas opiniões já existentes. Nesse cenário, aqueles mais suscetíveis à desinformação podem acabar consumindo material que confirme suas crenças, sem que isso gere uma mudança de posicionamento.
“A internet já está saturada de desinformação e, embora seja possível criar mais, isso não implica um efeito mais significativo”, enfatizou Simon. O estudo realizado com Altay mostrou que os resultados eleitorais continuaram a ser fortemente influenciados por aspectos como filiação partidária, identidade, contexto social e a atuação de lideranças políticas.
IA também pode aumentar a desconfiança
Apesar de não indicar que a inteligência artificial esteja isenta de provocar efeitos nas eleições, Simon acredita que os sistemas de IA podem criar argumentos concisos, estruturados e informativos, o que potencializa sua capacidade de persuasão. Por outro lado, ele também alertou para um efeito negativo que pode surgir: a desconfiança em relação a conteúdos autênticos. O fato de que ferramentas de IA conseguem gerar deepfakes convincentes pode levar uma parte do público a questionar a veracidade de até mesmo materiais verdadeiros.
Simon adverte que a cobertura midiática sobre os riscos da IA e da desinformação também deve ser manejada com cautela. Exageros sobre a questão podem contribuir para a percepção de que não é possível confiar nas informações ou na integridade das eleições.
Uso da IA deve crescer nas campanhas
Apesar da avaliação sobre o impacto eleitoral até o momento, Simon projeta um aumento no uso da tecnologia nas campanhas políticas, devido à sua ampla disponibilidade e adoção. Ele menciona que partidos políticos já estão utilizando ferramentas de inteligência artificial para criar materiais e realizar atividades administrativas. Nesse contexto, a tecnologia pode contribuir para a eficiência das campanhas, embora isso não signifique necessariamente efeitos negativos.
Simon ressalta que as ferramentas de IA estão acessíveis a diversos grupos políticos. Quando um partido ou candidato começa a utilizar essas tecnologias, seus adversários podem aprender e adotar recursos semelhantes, gerando uma espécie de “corrida armamentista” que tende a criar um novo equilíbrio nas disputas eleitorais.
Fonte: Olhar Digital